Terras do Gelo
A neve foi, durante muitos anos, um bem precioso — recolhida, armazenada e enviada até Lisboa para servir a Corte, para o fabrico de gelados. Hoje, resta a memória de um sistema engenhoso, e de um território que alimentou o luxo da capital.












Durante mais de 100 anos se recolheu e armazenou neve, na Real Fábrica de Neve do Coentral, concelho de Castanheira de Pera, situada no Cabeço do Pereiro, um dos mais altos cabeços da serra da Lousã, e se transportou para Lisboa, onde era usada na confecção de gelados e bebidas frescas, para satisfazer os luxos da Corte e o gosto da classe nobre da cidade.
O local é hoje mais conhecido por Santo António da Neve pois o Neveiro-Mor da Casa Real, Julião Pereira de Castro, ali mandou construir uma capela em honra do Santo, em 1786.
A neve era recolhida usando utensílios rudimentares, nomeadamente pás, ancinhos e rodos, sendo transportada em cestas até aos poços onde era despejada.
Através de escadas de madeira, dois homens desciam aos poços, que tinham uma profundidade superior a uma dezena de metros e, à medida que neles se ia despejando a neve, armazenavam-na, em camadas separadas entre si por palha de centeio, calcando-a com pesados maços de madeira.
A Real Fábrica da Neve do Coentral era composta por:
- sete poços de neve, de que restam apenas três;
- casebres, currais e telheiros para guarda dos utensílios de recolha da neve, resguardo dos animais e refeitório;
- uma capela;
- e, vários pequenos tanques rasos, as populares alagoas, construídos em lousa de xisto, onde a água da chuva ficava empoçada e acabava por se transformar em gelo nas noites frias de inverno.
Não se sabe ao certo quando a exploração desta frágil mercadoria ali começou. Contudo, há registos de que a neve era já utilizada pela Casa Real para refrescar bebidas, desde meados do século XVI.
Embora o ofício de neveiro já existisse, só há documentação escrita sobre a comercialização da neve a partir do início do século XVII, a propósito da vinda ao nosso país do rei Filipe II de Portugal, o que levou o Senado da Câmara a contratar o neveiro, Paulo Domingues, para “meter diariamente em Lisboa, (…) desde o 1º de junho até 30 de setembro daquele ano, quatro cargas de neve, d’onde quer que a houvesse, tendo cada uma d’estas partidas 24 arrobas, pelo menos”.
A comercialização da neve teve o seu apogeu durante o século XVIII, século em que passam a existir dois contratadores de neve em Lisboa – o “Neveiro da Casa Real”, instituído em 1717 e, o “Neveiro da Cidade”, que abastecia os vários botequins, entre os quais o actual Café Martinho da Arcada que, quando Julião Pereira de Castro, Neveiro da Corte e da cidade, o inaugurou em 1782 lhe deu o nome de Casa da Neve.
O negócio era de tal forma rendoso que levou este Neveiro a mandar edificar duas casas no Coentral em 1774 e 1775, onde residiu durante largas temporadas para o dirigir.
Do Coentral, dos Povorais e de outras aldeias vizinhas o Neveiro contratava, à jorna, homens, mulheres e garotos para apanhar, carregar, armazenar e expedir a neve. Em carta redigida no Coentral pelo punho de Julião Pereira de Castro, a 29 de Janeiro de 1769, o Neveiro escreve:
“Nomeio a Simão Duarte e José Duarte, do lugar dos Poboraes, termo de Goes, para irem ajuntar neve à real fábrica que se acha no cabeço do Pereiro, serra da Lousã, e para esses avisarem os mais do lugar do Coentral para acudirem a ajuntá-la.
Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada em grandes blocos de gelo, no interior do poço, usando maços e escopros semelhantes aos utilizados pelos canteiros, sendo depois içados para o exterior, com a ajuda de cordas e roldanas de madeira.
Aí, os blocos de gelo eram envolvidos em palha e serapilheira, metidos em caixotes e colocados nos carros de bois dos “carreiros”, que os iriam transportar, cuidadosamente envolvidos em fetos, de forma a isolá-los da temperatura exterior.
Diariamente, da Real Fábrica partiam à noite, para aproveitar as temperaturas mais baixas, carros de bois carregados com três ou quatro destes grandes blocos de gelo. Em Miranda do Corvo faziam uma paragem, para muda dos animais e carroças, seguindo depois até Constança e Barquinha, onde a neve era transferida para os barcos que a transportavam pelo rio Tejo até à Casa da Neve, em Lisboa, actual Café Martinho da Arcada.
O transporte era não só caro como moroso e difícil, pelo que, os monarcas que governaram Portugal, concediam ao Neveiro alvará de privilégios e proteções legais para que a neve chegasse a Lisboa com rapidez e em segurança.
A exploração do negócio na Real Fábrica da Neve do Coentral, terminou no ano de 1891. Evocando esses tempos, canta-se hoje, no folclore serrano:
Houve rezas pró nevão
No alto da serrania
Pra manter o ganha-pão
Promessas de romaria.
Desse tempo nos ficou
Santo António, na capela
Três poços – eis o que restou
Desta história tão singela
Santo António da Neve – Serra da Lousã