Ciclo
“Ciclo” é uma micro-história sobre interrupções: da normalidade, da vida tal como era conhecida, da relação com o lugar.



Mais do que reconstituir os factos, este trabalho parte de uma história concreta para evocar outras tantas — as de quem perdeu casas, terrenos, vizinhos, rotinas.
A peça procura captar esse momento suspenso — o depois. Quando já só há pouco mais do que fumo, e tudo permanece marcado. O solo, as pedras, o que resta das árvores, as memórias. É neste cenário que a performance se inscreve, usando o corpo e o espaço como forma de dar lugar ao que não é facilmente dito: o medo, a resistência, a perda.



A performance desenrola-se no próprio lugar marcado pelo incêndio — não como reconstrução, mas como procura. O corpo, ora estático, ora em deslocações hesitantes, move-se num espaço que perdeu os seus contornos e referências. Não há caminho definido: há um deambular que evoca a desorientação sentida após a catástrofe, entre o que existia e o que desapareceu.
O gesto torna-se uma forma de escuta e de reconhecimento. É uma tentativa de habitar um vazio, de reencontrar sentido num terreno onde a paisagem foi apagada e onde os marcos físicos e afetivos se diluíram. A presença do corpo é, aqui, um modo de testemunhar — entre contemplar o que havia e já não existe, e aproximar-se do que foi, sem nunca o alcançar totalmente.
Realização: Miguel Chichorro Com: Leonor Rocha Produção: Margarida Barros e Sónia Duarte Lopes